terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

“Midnight”: novamente um novo Coldplay


Desde seu quarto álbum, Viva la Vida, de 2008, o Coldplay (minha banda favorita, diga-se de passagem), vive um processo de crescente reinvenção. Se os três primeiros álbuns passeavam entre o rock alternativo, com ares de pop melódico em um movimento crescente; Viva la Vida inovou com músicas mais experimentais, com instrumentos diversos e menos melancolia. Seu primeiro single “Violet Hill” foi um divisor de águas e depois “Viva la Vida”, talvez o hit mais famoso, os eternizou, talvez, como a banda alternativa mais pop de todas.
Com o quarto álbum, Mylo Xyloto a banda inovou novamente, com um ar bem mais indie e um toque mais eletrônico.
Mas, creio eu, a música mais bizarra e curiosa até agora é o novo single lançado hoje, dia 25 de fevereiro de 2014: “Midnight”. Trazendo um pouco da melancolia dos primeiros álbuns, e um ar exótico de “Violet Hill”, “Midnight” é diferente de todas as outras pelo estilo bem mais folk, do que jamais foi, pela voz suave quase irreconhecível de Chris Martin e pela atmosfera plácida, nostálgica e serena, quase new age, que me remeteu de imediato ao indie folk da banda americana Bon Iver.
O clipe também merece um comentário à parte. Enquanto os clipes do último álbum abundavam em cores, sobretudo nos clipes dos singles “Hurts like Heaven” e “Every Teardrop is a Waterfall”, que traziam um emaranhado de cores vibrantes e dançantes com um visual psicodélico, em “Midnight” quase não há cores. O clipe é gravado em negativo, com tons de cinza, preto, branco e um azul pálido, entrecortados poucas vezes por outras cores apagadas, que lembra alguns dos novos clipes de Radiohead, outra banda que se reinventou e que teve seus hits mais antigos comparados aos hits mais antigos do Coldplay que sabidamente neles se inspirou em alguma medida. O clipe de “Midnight” é um jogo de luz e sombra bem simples, mas bonito ainda assim, plácido, calmo, com uma melancolia nostálgica, completamente diferentes da tristeza dos primeiros álbuns e oposto às cores vibrantes do álbum anterior, ou mesmo da luminosidade ensolarada de “Viva la Vida” e “Paradise”.
Novamente, Coldplay está se reinventando.
Quem ainda não ouviu a música e nem viu o clipe, vale a pena dar uma espiada nesse novo single indie-folk do Coldplay que ficou incrível, apesar de totalmente diferente. Quem espera a animação, as cores e a vida de Mylo Xyloto, vai se decepcionar, é preciso outros olhos para ver a graça de “Midnight”, como foi preciso antes, quando “Violet Hill” foi lançada. Resta saber agora se é um prenúncio do sexto álbum ou um projeto isolado. De toda forma, eu adorei.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Onde estão as famosas descrições de George R. R. Martin?


Depois de ouvir por anos todo mundo dizendo que As Crônicas do Gelo e do Fogo era a obra mais brilhante de fantasia desde O Senhor dos Anéis, criei vergonha na cara e resolvi ler a série. Ainda não a terminei, mas uma coisa já ficou clara: todo mundo tinha razão. Martin é mesmo brilhante.
Mas não estou escrevendo (apenas) para reafirmar o que todo mundo diz, e sim para refletir sobre outra coisa que todo mundo também cometa: o fato de que George R. R. Martin (supostamente) exagera nas descrições.
Sempre que alguém fala em Martin, outra pessoa acrescenta: “pena que ele exagera nas descrições”, ou então, “pena que ele escreve demais”, “pena que ele coloca muita cena inútil”, ou ainda, “é cansativo, pois tem muito detalhe”. Foi com isso em mente que comecei a ler a série. Esperava ver páginas e páginas de descrições minuciosas e cansativas, e logo de cara me surpreendi por não achar nada disso. Sim, Martin escreve demais, mas não porque exagera nas descrições e sim porque seus livros são como vários livros intercalados, com vários núcleos e diversos personagens. As cenas são intercaladas por muito diálogo e a maior parte da narração é tão colada ao ponto de vista dos protagonistas que são muito mais reflexivas do que descritivas. Ao contrário do que eu sempre ouvi, achei a série incrivelmente dinâmica.
E pensei comigo: onde, afinal, estão todas as descrições sobre as quais tanta gente tanto reclamou?
Depois de ler mais, constatei que tais descrições exageradamente minuciosas e excessivas simplesmente não existem. Ao menos, não se você fizer as comparações corretas. Então, isso me levou a outra questão: o que diabos o povo que reclama das descrições do Martin andou lendo até hoje?
Pois parando para pensar muito rapidamente, é difícil um livro publicado até os anos 80 que não seja muito mais descritivo do que As Crônicas do Gelo e do Fogo. De fantasia ou não. O que pensar então em livros do século 19 ou anteriores? Quem reclama do Martin (já ouvi tanta gente falar absurdos como “eu pulo as descrições”, “elas me cansam”, etc.) certamente não leu Eça de Queirós, nem José de Alencar, muito menos Flaubert, Balzac ou Stendhal... Não leu Robinson Crusoé, nem nada dos séculos anteriores. COM CERTEZA, não leu Moby Dick. Outros poderão argumentar: mas esses não são romances fantásticos. É verdade, não são. Mas mudemos de exemplos, então. Quem reclama do Martin não leu certamente Drácula, tampouco Júlio Verne, menos ainda Edgar Allan Poe ou a maior parte dos outros contistas de terror, fantasia e ficção científica do século XIX. Mesmo se pensarmos no século XX, fica claro que quem reclama de Martin não leu Tolkien, nem Anne Rice, tampouco Terry Brooks, dentre muitos outros, de quaisquer subgêneros do fantástico que for. Qualquer livro desses é MUITO mais descritivo do que Martin. Isso porque citei apenas alguns e não fugi do óbvio e do obrigatório para quem curte o gênero.
Quero deixar claro que não vejo o uso de descrições como algo negativo. Gosto de muitos autores excessivamente descritivos. Meu intuito com a postagem é apenas comentar que é injusto com Martin criticá-lo por algo que sequer ele faz!
Diante disso, eu me pergunto então:

O que diabos o autodenominado “leitor” que reclama de George Martin andou lendo até hoje?

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Atualizando: já li todos os volumes da série publicados até agora e também o spin-off O Cavaleiro dos Sete Reinos e mantenho a opinião postada aqui.